Sábado, 26 de Fevereiro de 2011

(Fotografia de autor desconhecido)

 

Quando este blogue, decidi que nele colocaria exactamente um post por dia - nem mais, nem menos. E decidi que, passado um ano, o blogue terminaria. Faz hoje exactamente um ano sobre a criação do blogue, e, por isso, o Locus Amoenus termina aqui. Foi uma longa viagem, este ano. Recordado o dia em que decidi fazer este blogue, reparo que praticamente tudo aquilo que conhecia mudou - algumas coisas para melhor, muitas outras para pior, mas todas para algo diferente, e por vezes de forma inesperada. Parte de mim, talvez a maior parte, lamenta esta decisão. O blogue tornou-se numa surpreendente companhia ao longo dos dias, e com o passar do tempo, a rotina e o prazer de o continuar acabou por se tornar mais importante do que os motivos que estiveram na sua génese. Sei que me vai fazer muita falta escrever aqui; sei que vou sentir vontade de o recomeçar, de o continuar. Sei que o momento não é o melhor, e que os dias que se avizinham certamente me dariam muito para escrever. No entanto, todos os finais são necessários; e há uma outra parte de mim que se sente feliz por este fim. Não só por causa do trabalho que o blogue deu (e deu, e muito), e da rotina a que me obriga, mas também (e sobretudo) por saber que, pela primeira vez na vida, não deixei algo a meio, consegui começar algo e levá-lo até ao seu fim lógico, sem me perder pelo caminho. É gratificante, a sensação, ainda que triste. Deixa um vazio certamente difícil de preencher. É certo que poderia continuar a escrever aqui; mas dado o motivo que me levou a criar e manter este espaço, só faria sentido se mantivesse o ritmo diário. Qualquer outro seria estranho, seria algo que não isto. E sei que, a continuar, mais cedo ou mais tarde iria falhar. É por isso preferível manter a ideia original, colocar enfim o ponto final, sentir saudades do que já tive e não pena por perder algo que ainda tenho.

O Locus Amoenus termina aqui e agora. A quem leu este espaço ao longo dos últimos trezentos e sessenta e cinco dias, muito obrigado. Fica a última mensagem, a da fotografia. Aquele dia também há-de chegar para mim.



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Sexta-feira, 25 de Fevereiro de 2011

("Walking away"; imagem do site pop art machine; todos os direitos reservados)

 

Fazemo-nos enfim à estrada. Não sabemos onde nos levará o caminho; sabemos apenas de onde nos leva ele. De onde partimos. O que deixámos para trás na poeira. Todos os finais implicam um recomeço, diz-se. É possível. Mas entre o fim e o início existe sempre um longo caminho a percorrer. 



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Quinta-feira, 24 de Fevereiro de 2011

("Pick a Dream"; fotografia de Digi Butterfly, no flickr. Todos os direitos reservados)

 

Talvez uma escolha ajudasse. Não uma mera opção pelo recorrente mal menor, mas uma escolha real: uma mão cheia de possibilidades, brilhantes, promissoras, plenas de esperança. Olhar para todas essas possibilidades, suster a visão no encantamento, e ter dificuldade de escolher por serem todas tão apetecíveis. Ter vontade de as seguir todas, de ficar com elas todas, de não as devolver por nada. Claro que tais escolhas só existem em sonhos; o mal menor é a realidade com que nos deparamos a cada dia, seja em forma de final, seja em forma de recomeço.



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Quarta-feira, 23 de Fevereiro de 2011

("Through the looking glass"; fotografia de autor desconhecido)

 

Idealmente, ao final seguir-se-ia um recomeço, como se um portal para um novo mundo se abrisse para nós. Teríamos a oportunidade de recomeçar tudo uma vez mais, com todo o conhecimento adquirido pela experiência e sem nenhum preconceito que essa experiência pudesse trazer. Idealmente. Na realidade, o novo mundo que pisamos após o final é apenas um reflexo no qual o mundo anterior se projecta; e a passagem que a custo atravessamos não nos abre nada de novo. Apenas nos conduz ao ponto onde ficámos, em mãos com a tarefa de reconstruir tudo a partir de escombros.



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Terça-feira, 22 de Fevereiro de 2011

("I like sleeping in your bed..."; fotografia de Jess, no flickr. Todos os direitos reservados)

 

O que custa nos finais, em qualquer final, é o desaparecimento da rotina. É o fim de uma série, mais ou menos longa, de hábitos que coleccionámos ao longo do tempo. O final implica uma ruptura com todos esses hábitos; e no dia que se segue, o primeiro impacto tem origem precisamente no vazio que se instala no lugar de tudo aquilo que fazíamos, mas que já não podemos fazer. Podem ser pequenas coisas; na sua ausência, os mais insignificantes detalhes ganham uma dimensão e uma relevância quase assustadoras.



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Segunda-feira, 21 de Fevereiro de 2011

(Fotografia de autor desconhecido)

 

Aproximam-se os dias do fim, os últimos dias da última ligação a um mundo que há muito tempo deixou de me pertencer. Como se os pés se levantassem do chão e flutuasse ao acaso, para rumo incerto. Bem sei que a verdadeira força da mudança reside na espontaneidade; a viragem programada é por norma uma forma particularmente perigosa de auto-ilusão. Mas é por vezes necessário programar essa mudança, definir o seu momento de fuga, e mantê-lo a qualquer preço.



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Domingo, 20 de Fevereiro de 2011

(Fotografia de autor desconhecido)

 

Tendemos a pensar no ódio como a faceta contrária, oposta do amor, mas essa definição está incorrecta. O ódio não é a antítese do amor, mas a sua negação absoluta. Como as trevas não são o oposto da luz, mas a ausência total da luz.



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Sábado, 19 de Fevereiro de 2011

(Fotograma de Control (2007), filme de Anton Corbjin)

 

Evocamos controlo esquecendo-nos, com frequência, de que o controlo tem necessariamente duas direcções. E de que, uma vez perdido, a queda é imparável.



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Sexta-feira, 18 de Fevereiro de 2011

(Fotograma de Céline et Julie Vont en Bateau (1974), filme de Jacques Rivette)

 

Por vezes não somos mais do que um grande erro de casting, colocados num papel que sabemos ser incapazes de representar. É irrelevante o esforço, a dedicação, a vontade: o papel é superior a tudo isso, paira sobre nós como algo incompreensível e inatingível. Nessas situações, não adianta tentar novamente, não se aplica a famosa mázima do "falhar melhor". Importa apenas encontrarmos uma forma de sair de cena sem que alguém repare.



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Quinta-feira, 17 de Fevereiro de 2011

(Fotografia de autor desconhecido)

 

E de repente olho para trás e percebemos que passaram onze anos desde aquela manhã inesquecível. Mais de uma década. É muito tempo, sobretudo se pensarmos quão curtas são as nossas vidas. Passaram onze anos. Olho para trás novamente. É apenas uma memória; tamanha inocência, tamanho encantamento, tamanha crença no futuro - e, por que não dizê-lo, tamanha felicidade - parecem nos dias de hoje uma miragem.



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